A história de superação e fé de um jornalista maranhense…

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Jornalista maranhense, de 52 anos, teve sua vida salva por um doador de coração; transplante lhe fez dar mais valor à vida mais valor à vida

“Algo em mim mudou, e para melhor”
Edson Cantanhêde e a esposa Ana Cláudia, que o acompanhou durante todo o tratamento (Foto: Flora Dolores / O ESTADO)

“Hoje, até a chuva me dá uma alegria imensa. Quando estava internado, preso a uma máquina, que pesava de 8 kg a 10 kg, eu a arrastava para ver a chuva do hospital. Hoje, eu valorizo cada gota de chuva que cai. Valorizo cada instante da minha vida porque eu beirei a morte, praticamente renasci”. O depoimento emocionante é de Edson Cantanhêde, jornalista maranhense de 52 anos que há 20 meses fez um transplante no Hospital do Messejana, em Fortaleza (CE), ganhou o coração de um jovem motoqueiro de 18 anos e, junto, uma nova chance de seguir com a vida.

Segundo ele, que no Natal visitou São Luís pela segunda vez após a cirurgia – sendo esta mais demorada -, a vida após o transplante é bem diferente daquela que tinha antes. E não é só pela rotina de ter que tomar remédios ou fazer exercícios diariamente. A visão de mundo, da cidade, de tudo, mudou.

E ele mesmo explica, sem rodeios. “Vou dar um exemplo bem claro: morei muito tempo em São Luís, mas eu nunca tinha me atentado para passar um tempo andando no Centro Histórico. Hoje [segunda-feira, 26 deste mês], eu estive lá, passei uma hora e meia contemplando a beleza dos casarões. Andei em cada viela da Praia Grande, comprei coisas que nunca tinha comprado, passei a valorizar. A contemplação ficou latente e eu passei a ser emotivo. Algo em mim mudou, e mudou pra melhor, com certeza”, declarou.

Descoberta

Tanta mudança não é para menos. Cantanhede descobriu ser portador de miocardiopatia dilatada congênita, o popular coração grande, aos 45 anos. Logo após a descoberta dessa herança genética, iniciou o tratamento clínico, feito até dois anos atrás, quando um especialista disse que não havia mais jeito a dar e, para seguir em frente, seria necessário o tratamento cirúrgico, isto é, o transplante de coração. “Passei a ter crises sucessivas, a me internar sempre, o coração não tinha força para bombear sangue para o corpo todo e alguns órgãos e começaram a ter problemas. Em função disso, eu tive cinco AVCs (Acidente Vascular Cerebral). Graças a Deus, não fiquei com sequelas e sobrevivi a todos”, relatou.

Nesse período, ele contou que passava uma semana em casa e a outra no hospital em São Luís, sem muitas expectativas. “Um dia, estava internado, já planejando como seria o meu sepultamento – porque estava claro pra mim, eu estava com os dias contados, tinha consciência disso -, quando entrou um médico no meu quarto e perguntou o que eu tinha. Depois que falei, ele disse: ‘Por que tu não fazes um transplante?’ Eu disse: Para mim, doutor, isso é algo inimaginável, não sei como. Ele tirou um cartão do bolso, me deu e disse: ‘Liga para esse moço. Ele vai tratar do transplante, na medida do possível”, relatou.

O contato era do médico João Davi, chefe do setor de Transplante do Hospital de Messejana, em Fortaleza (CE). Ele ligou, marcou uma consulta e viajou, já com o encaminhamento para o transplante e levando os exames feitos em São Luís. “Quando cheguei lá, eu andava cinco metros e tinha que parar para descansar. A perna, o corpo estava todo inchado. Para se ter uma ideia, numa escada de uns 30 degraus, eu parei umas seis vezes”, lembrou.

Internação

Ao recebê-lo, o médico só olhou os exames e ligou direto para o hospital para que Edson Cantanhêde fosse internado imediatamente para fazer o transplante. Só que ele ainda não podia fazer a cirurgia porque não tinha nenhuma estrutura na capital cearense. Marcou para 15 dias depois. Voltou para São José de Ribamar, onde morava na época, e foi o tempo que ele a esposa, Ana Cláudia Amaral, alugaram uma casa no Ceará, organizaram tudo e seguiram de volta para que ele fosse hospitalizado.

“Eu me internei no dia 11 de maio de 2015 e fiz o transplante no dia 15 de junho. Nesse espaço de tempo, eu fiquei me preparando para o transplante, porque eu estava tão mal que não via mais nem a diferença das cores, tudo era branco na minha vista. E tem que fazer a preparação porque não pode haver riscos de infecção. Passei um mês e pouco ligado a uma máquina que tinha um medicamento que garantia força para o meu coração bombear sangue para o corpo todo”, contou ele.

Com o corpo já preparado, Cantanhede ouviu a notícia de que já havia um doador e que faria a cirurgia na noite daquele dia – 15 de junho de 2015. “Aí eu sentir o chão faltar e entreguei a Deus a minha vida. Entrei na sala de cirurgia em torno de 20h e saí seis horas depois. Foram sete dias na UTI e, nesse intervalo, meu relógio biológico desapareceu. Tudo era dia, passei a ter pesadelos constantes, cheguei a pensar que estava louco. Até que um psicólogo me falou que era normal, porque eu tomava remédios muito fortes para evitar rejeição e que esses efeitos iam passar”, lembrou, citando inclusive que o nome do médico era José de Ribamar, natural da cidade de São Domingos do Maranhão. E os efeitos passaram.

Depois disso, foram mais 30 dias internado, isolado em um quarto, com o acompanhamento vigilante da esposa. Em seguida, após a liberação do hospital, o tratamento continuou por mais três meses em casa, sem poder ir à rua. Após, foi liberado para sair aos poucos, mas usando máscara. Seis meses depois, veio a liberação para sair sem máscaras, mas sempre tomando muito cuidado, evitando aglomerações. Por fim, veio a liberação total.

Limitações

“Voltei a ter uma vida melhor do que antes, mas com limitações. Até hoje, eu tomo remédios para evitar a rejeição. Mas eu não reclamo. Eu adoro essa condição. Pela vida eu faço qualquer sacrifício”, ressaltou ele, que sabe apenas que o doador do coração foi um motoqueiro de 18 anos e lamenta que o jovem teve que morrer para salvar a vida dele.

E ele é tranquilo ao falar da lição que essa experiência deixou: “A principal lição de tudo isso é que você tem que lutar pelas coisas que quer conseguir na sua vida. Enquanto eu não sabia da perspectiva do transplante, eu estava conformado. Depois que se abriu essa janela e eu via a possibilidade de me curar, entre aspas, eu persegui isso incansavelmente”, declarou.

“A vida é um dom de Deus. Hoje eu valorizo a vida como eu nunca valorizei antes”

“Eu nunca fui de pensar no futuro. Nunca tive essa preocupação. Hoje, diante do que passei, o que eu quero é continuar onde estou com qualidade de vida para mim”

“Minha esposa teve papel fundamental nessa história. Ela pediu demissão do emprego, passou um mês internada comigo no hospital, depois seis meses em casa porque eu não podia ficar sozinho. Agora, ela já tem a vida dela de volta, mas sempre preocupada”

“Eu penso terminar meus dias de vida do jeito que Deus quiser, porque minha vida está nas mãos dele”

Fonte: O Estado

 

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