Reportagem da Folha de S.Paulo aponta que as investigações sobre o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, ocorrido em 2022, tornaram-se o centro de uma disputa envolvendo as principais forças políticas do Maranhão e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que governou o estado entre 2015 e 2021.
Dino assumiu a relatoria do caso no ano passado. Antes de a investigação chegar ao Supremo, Gilbson Cutrim foi apontado pela Justiça maranhense como executor do homicídio e condenado, em 2024, a 13 anos de prisão. Ele estava detido em regime fechado desde agosto de 2022, mas passou para a prisão domiciliar em maio deste ano, após o ministro maranhense reconhecer o cumprimento da fração legal da pena necessária à progressão de regime.
Uma das linhas de investigação apura se o assassinato teria relação com uma suposta cobrança de propina atribuída ao atual presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão. Ele é sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB), atualmente rompido com o grupo político ligado a Dino e com o vice-governador Felipe Camarão (PT).
Em maio, Gilbson divulgou um vídeo no qual afirmou que o secretário estadual Raimundo Cutrim teria oferecido ao seu pai “vantagens, dinheiro e casas” para retirar o nome de Daniel Brandão e de integrantes da família Brandão dos depoimentos prestados no caso.
“[Propôs] valores exorbitantes. Uma parte desse material já está com a Polícia Federal. Essa outra a gente vai entregar no momento oportuno. A intenção disso aqui não é ter vantagem, é até uma forma de sobrevivência porque a gente é muito ameaçado”, declarou Gilbson na gravação.
As declarações passaram a ser exploradas politicamente por aliados do vice-governador Felipe Camarão, pré-candidato ao Governo do Maranhão e adversário do grupo de Carlos Brandão. O governador apoia a candidatura do sobrinho, Orleans Brandão (MDB), ao Palácio dos Leões.
Na última semana, Flávio Dino determinou o cumprimento de mandados de busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, além de impor prisão domiciliar e afastá-lo do cargo, sob suspeita de obstrução de Justiça. Durante a operação, foram apreendidas 26 armas em endereços relacionados ao secretário.
Entre os elementos considerados na decisão está um áudio no qual Cutrim seria suspeito de tentar convencer familiares de Gilbson a alterar depoimentos prestados à polícia e a não relacionar Daniel Brandão ao assassinato de João Bosco.
Aliados do governador Carlos Brandão questionam a imparcialidade de Flávio Dino para conduzir decisões relacionadas a políticos do estado que administrou. Interlocutores do ministro, entretanto, afirmam que ele não identifica no caso nenhuma das hipóteses legais de suspeição ou impedimento, como parentesco, amizade íntima, inimizade capital ou participação anterior em ações relacionadas aos envolvidos.

